Jefferson Péres

José Jefferson Carpinteiro Péres (Manaus, 18 de março de 1932 — Manaus, 23 de maio de 2008)

Discurso no Senado Federal em 30 de Agosto de 2006 (Em Negrito grande colocações )

Sr. Presidente, Srªs e Srs.
Senadores, depois de longa ausência de algumas semanas, volto a esta
tribuna para manifestar o meu desalento com a vida pública deste País.

Gostaria de estar aqui
discutindo, como fez o Senador José Jorge, a respeito das riquezas
naturais do Brasil, com as quais ele tanto se preocupa, e não como
falarei, sobre algo muito pior: a dilapidação do capital ético deste
País.

Senador José Jorge, poderíamos
não ter um barril de petróleo nem um metro cúbico de gás, mas
poderíamos ser uma das potências mundiais em termos de desenvolvimento
.

O Japão não tem nada. Não tem
petróleo, gás ou riquezas minerais. A Coréia do Sul também não tem nada
disso, Senador Antonio Carlos, e nos dá um banho em termos de
desenvolvimento não apenas econômico, mas também humano.

O que está faltando mesmo ao
Brasil e sempre faltou é uma elite dirigente com compromisso com a
coisa pública, capaz de fazer neste País o que precisaria ser feito:
investimento em capital humano.

Vejam que País é este. Estamos
aqui com seis Senadores em pleno mês de agosto, porque estamos em
recesso branco. Por que não se reduz a campanha eleitoral a trinta dias
e transfere-se o recesso de julho para setembro? Nós ficaríamos com o
Congresso aberto, de Casa cheia, até 31 de agosto. Faríamos trinta dias
de campanha em recesso oficial, remunerado.

Estamos aqui no faz-de-conta.
Como disse o Ministro Marco Aurélio, este é o País do faz-de-conta.
Estamos fingindo que fazemos uma sessão do Senado, estamos em casa sem
trabalhar. Estou em Manaus há quase um mês, recebendo, sem fazer nada -
para o Congresso Nacional, pelo menos
. Como se ter animação em um País
como este com um Presidente que, até poucos meses atrás, era
sabidamente - como o é - um Presidente conivente com um dos piores
escândalos de corrupção que já aconteceu no Brasil, e este Presidente
está marchando para ser eleito, talvez, em primeiro turno? É
desinformação da população? Não, não é. Se fizermos uma enquete em
qualquer lugar deste País, todos concordarão, ou a grande maioria, que
o Presidente sabia de tudo. Então, votam nele sabendo que ele sabia. A
crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge
grande parte da sociedade brasileira. Ele vai voltar porque o povo quer
que ele volte. Democracia é isso. Curvo-me à vontade popular, mas
inconformado. Esta será uma das eleições mais decepcionantes da minha
vida. É a declaração pública, solene, histórica do povo brasileiro de
que desvios éticos por parte de governantes não têm mais importância.
Isso vem até da classe dos intelectuais, dos artistas
. Que episódio
deplorável aquele que aconteceu no Rio de Janeiro semana passada!
Artistas, numa manifestação de solidariedade ao Presidente, com
declarações cínicas, desavergonhadas, Senador Antonio Carlos Magalhães!
Um compositor dizer que "política é isso mesmo, fez o que deveria
fazer", o outro dizer que "política é meter a mão na 'm'"! Um artista,
em qualquer país do mundo, é a consciência crítica de uma nação. Aqui é
essa, é isso que é a classe artística brasileira, pelo menos uma grande
parte dela, é o povo conivente com isso.

O Sr. Antonio Carlos Magalhães
(PFL - BA) - E pagos pela Petrobras.

O SR. JEFFERSON PÉRES
(PDT - AM) - E pior, pior ainda: os artistas estão fazendo isso em
interesse próprio, porque recebem de empresas públicas contratos
milionários - isso é a putrefação moral deste País -, e o povo vai
reconduzir o Presidente porque "política é isso mesmo".

Tenho quatro anos de Senado.
Não me candidatarei em 2010, não quero mais viver a vida pública. Vou
cumprir o mandato que o povo do Amazonas me deu, não vou silenciar. Ele
pode ser eleito com 99,9%. Eu estarei aí na tribuna dizendo que ele
deveria ter sido mesmo destituído porque o que ele fez é muito grave. É
muito grave. Curvo-me à vontade popular, mas não sem o sentimento de
profunda indignação. A classe política, nem se fala, essa já apodreceu
há muito tempo mesmo. Este Congresso que está aqui, desculpem-me a
franqueza, é o pior de que já participei. É a pior legislatura da qual
já participei, Senador Antonio Carlos Magalhães. Nunca vi um Congresso
tão medíocre. Claro, com uma minoria ilustre, respeitável, a quem
cumprimento. Mas uma maioria, infelizmente, tão medíocre, com nível
intelectual e moral tão baixo, eu nunca vi. O que se pode esperar disso
aí? Não sei
. Eu não vou mais perder o meu tempo. Vou continuar
protestando sempre, cumprindo o meu dever. Não teria justificativa
dizer que não vou fazer mais nada. Vou cumprir rigorosamente o meu
dever neste Senado até o último dia de mandato, mas para cá não quero
mais voltar, não!

Um País que tem um Congresso
deste, que tem uma classe política dessa, que tem um povo... Senador
Antonio Carlos Magalhães, dizem que político não deve falar mal do
povo. Eu falo, eu falo. Parte da população compactua com isso. É
lamentável! E que sabe. Não é por desinformação, não. E que não é só o
povão, não. É parte da elite, inclusive intelectua
l. Compactuam com
isso é porque são iguais, se não piores. Vou continuar nessa vida
pública? Para que, Senador Antonio Carlos Magalhães? Eu louvo V. Exª,
que é um pouco mais velho do que eu e vai continuar ainda. Mas, para
mim, chega! Vou continuar pelejando pelos jornais e por todos os meios
possíveis, mas, como ator na vida política e na vida pública deste
País, depois de 2010, não quero mais! Elejam quem vocês quiserem! Podem
chamar até o Fernandinho Beira-Mar e fazê-lo Presidente da República -
ele não vai com o meu voto, mas, se quiserem, façam-no.

O meu desalento é profundo.
Deixo isso registrado nos Anais do Senado Federal. Infelizmente, eu
gostaria de estar fazendo outro tipo de pronunciamento, mas falo o que
penso, perdendo ou não votos - pouco me importa. Aliás, eu não quero
mais votos mesmo, pois estou encerrando a minha vida pública daqui a
quatro anos, profundamente desencantado com ela.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

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